O estudo investiga a incompatibilidade estrutural entre o regime ocupacional que o Conselho Federal de Medicina impõe a médicos-influenciadores e o regime organizacional que plataformas digitais impõem a criadores de conteúdo, tratados como sistemas prescritivos concorrentes sobre a mesma prática.
Estudos anteriores documentaram separadamente comercialização, desinformação e conflitos de identidade entre médicos-influenciadores, sem confrontar os dois regimes normativos que produzem essas tensões. O artigo preenche essa lacuna ao tratar profissionalismo ocupacional e organizacional como sistemas prescritivos concorrentes sobre a mesma prática.
Análise documental qualitativa com codificação indutivo-abdutiva, seguindo a Teoria Fundamentada Construtivista (Charmaz, 2014), sobre três documentos normativos do CFM. As dimensões agregadas resultantes foram confrontadas par a par com as dimensões do profissionalismo organizacional de plataforma.
A regulação médica organiza-se em três dimensões (autoridade insulada, desempenho epistêmico padronizado, sobriedade profissional) que colidem ponto a ponto com os imperativos das plataformas em três contrastes e quatro contradições transversais, revelando incompatibilidade ao nível ontológico do que constitui existência profissional.
O estudo operacionaliza empiricamente a distinção de Evetts entre profissionalismo ocupacional e profissionalismo organizacional, estende Larson, Freidson e Abbott ao trabalho mediado por plataformas e propõe um procedimento de análise documental comparativa entre regimes normativos concorrentes aplicável a outras profissões fiduciárias.
Para a regulação médica, a saúde pública e a gestão do trabalho profissional, o estudo mostra que o descompasso entre os dois regimes é estrutural, não uma falha de conformidade individual, e não pode ser resolvido por fiscalização mais rígida do CFM
This study investigates the structural incompatibility between the occupational regime the Brazilian Federal Council of Medicine (CFM) imposes on physician-influencers and the organizational regime platforms impose on content creators, treating both as competing prescriptive systems bearing on the same practice.
Prior studies document commodification, misinformation, and identity conflict among physician-influencers separately, without confronting the two normative regimes producing these tensions. This article fills that gap by treating occupational and organizational professionalism as competing prescriptive systems bearing on the same practice.
Qualitative document analysis with inductive-abductive coding, following constructivist grounded theory (Charmaz, 2014), applied to three CFM normative documents. The resulting aggregate dimensions were compared pairwise against the dimensions of platform organizational professionalism.
Medical regulation organizes into three dimensions (insulated authority, standardized epistemic performance, professional sobriety) that collide point by point with platform imperatives across three contrasts and four transversal contradictions, revealing incompatibility at the ontological level of what constitutes professional existence.
The study empirically operationalizes Evetts's distinction between occupational professionalism and organizational professionalism, extends Larson, Freidson, and Abbott to platform-mediated work, and proposes a comparative document-analysis procedure for confronting competing normative regimes, applicable to other fiduciary professions.
For medical regulation, public health, and the management of professional labor, the study shows that the mismatch between the two regimes is structural, not a matter of individual noncompliance, and cannot be resolved through stricter CFM enforcement alone.