Analisar como os principais instrumentos federais brasileiros de transformação digital e governança de inteligência artificial incorporam gestão da mudança, cultura organizacional e dimensões humanas, bem como as consequências desse tratamento para a adoção de IA na Administração Pública Federal.
O estudo compara documentos oficiais não examinados conjuntamente sob a perspectiva sociotécnica e evidencia um descompasso entre a centralidade das pessoas apontada pela literatura e a prioridade tecnológica expressa nas estratégias, normas e alocações orçamentárias federais.
Pesquisa qualitativa, descritiva e analítica, baseada em documentos federais e dados secundários públicos. Combinaram-se análise de conteúdo, lexicometria normalizada por mil palavras, classificação dos dispositivos em dimensões humana e técnica e exame do perfil da força de trabalho.
Nos dez conjuntos de dispositivos analisados, a dimensão humana não superou 15%; em quatro, foi nula. Gestão da mudança organizacional não apareceu nos documentos, e o PBIA destinou 5,0% dos recursos à formação, contra 31,2% à infraestrutura tecnológica.
O artigo propõe o conceito de “substituição categorial”, pelo qual capacitação é tratada como equivalente à gestão da mudança, e oferece medida quantitativa, contextualizada e reprodutível do desequilíbrio entre as dimensões humana e técnica dos instrumentos analisados.
Recomenda-se criar eixo de cultura e mudança organizacional, com orçamento, responsabilidades e indicadores de adoção; integrar gestão de pessoas e escolas de governo à governança de IA; e ampliar a participação dos servidores no desenvolvimento e avaliação das soluções.
To assess how Brazil’s principal federal digital transformation and artificial intelligence governance instruments incorporate change management, organizational culture, and human dimensions, and to examine the consequences of this treatment for AI adoption across the Federal Public Administration.
The study compares official instruments not previously examined together through a sociotechnical lens and reveals a mismatch between the centrality of people established in the literature and the technological priorities expressed in federal strategies, regulations, and budget allocations.
This qualitative, descriptive, and analytical study combines documentary analysis of federal instruments with public secondary data. It applies content analysis, lexicometric frequencies normalized per thousand words, classification of provisions into human and technical dimensions, and workforce profile analysis.
Across ten sets of provisions, the human dimension never exceeded 15%; in four, it was absent. Organizational change management did not appear in the documents, while the Brazilian Artificial Intelligence Plan allocated 5.0% to training and 31.2% to technological infrastructure.
The article introduces “categorical substitution,” whereby training is treated as equivalent to change management, and provides a contextualized, reproducible quantitative measure of the imbalance between the human and technical dimensions of the instruments examined.
It recommends a dedicated culture and organizational change pillar with funding, responsibilities, and adoption indicators; including human resources units and government schools in AI governance; and expanding civil servants’ participation in the development and evaluation of solutions.